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Em busca da utilidade da Educação Financeira

Receber a notícia de que seu trabalho é inútil não deve ser muito animador. Diria que causa uma mistura de sentimentos que envolve, no mínimo, frustração, revolta e negação. Mas deveria incluir também reflexão.

Foi por essa situação que devem ter passado aqueles profissionais que trabalham de alguma forma com educação financeira e leram o Valor do dia 11 de junho.

A edição trouxe excelente matéria da repórter Luciana Seabra sobre o tema. Para quem não teve a chance de ler, o texto falava de um estudo acadêmico conduzido por três pesquisadores, um deles brasileiro, que apontou baixíssimo poder explicativo quando se avalia a relação entre treinamento de educação financeira e o comportamento financeiro das pessoas.

Novos métodos e regulação para os não racionais

 

O trabalho revisou 168 pesquisas sobre o tema, feitas no período de 1969 a 2013.

É possível reagir a esse tipo de estudo de algumas maneiras. A mais simples e talvez a mais errada é simplesmente desqualificar o trabalho. De fato, no campo das ciências sociais aplicadas, tanto os estudos que pretendem confirmar como desmentir um fenômeno não devem ser tomados pelo valor de face logo de cara.

As convicções devem ser formadas com o tempo, aos poucos, porque técnicas, amostras e ambientes diferentes de testes podem levar a resultados divergentes. Mas ao se assumir que a pesquisa possa estar correta, quais opções restam para esses militantes da educação financeira?

Também nesse caso, a alternativa que parece mais fácil e errada é desistir de tudo, com alegação de que, se é inútil ou pouco relevante, porque dedicar tempo e outros recursos para isso? Um bom primeiro passo para reações mais produtivas é tentar entender a questão de pesquisa do estudo.

Pelo que parece da descrição feita pelos pesquisadores, o trabalho não quis testar se as pessoas absorveram o conteúdo que lhes foi passado nos treinamentos de educação financeira, mas sim o comportamento que elas adotaram quando tiveram que tomar uma decisão financeira certo tempo depois.

Em um exemplo, a pessoa pode até ter aprendido, após o treinamento a que foi submetida, que não lhe faz bem ficar atolada pagando os juros extorsivos do rotativo do cartão de crédito, mas nem tendo orientação sobre a disponibilidade de linhas de crédito mais baratas na rede bancária ela consegue se livrar dessa bola de neve.

Seria o caso também daquele poupador tradicional que deixa o dinheiro na caderneta mesmo depois de ser apresentado a alternativas mais rentáveis – e tão seguras quanto – de investimento.

Nesses casos, é possível dizer que a estratégia de educação financeira pode ter funcionado para a pessoa ao menos saber quais as melhores opções racionais para tomar, mas não para mudar seu comportamento. Ela seria necessária, mas não suficiente.

Se fosse entrevistada, a pessoa talvez soubesse dizer o que “deveria fazer”, ou o que é o certo, mas não é capaz e aplicar aquele conhecimento na sua vida prática.

Eu poderia pensar numa série de casos em que essa contradição ocorre em outras áreas da vida e do conhecimento. Mas para poupar meu trabalho, um leitor do Valor, Rômulo Sales, fez isso num comentário logo abaixo da matéria de Luciana Seabra daquele dia. “É o caso de você ter economistas girando no rotativo e pendurados no cheque especial, médicos fumantes, dentistas com cáries, cabeleireiros com cabelos mal tratados, dermatologistas com problemas de pele e por aí vai”, escreveu ele.

O que fica claro é que, muito antes dessa pesquisa sobre educação financeira, já era possível perceber que o desafio de influenciar hábitos e comportamentos das pessoas vai muito além da transferência de conhecimento.

A publicidade lida com isso há bastante tempo. As pessoas já sabem da existência do refrigerante Coca-Cola, da cerveja Skol e a lâmina de barbear Gillette. E nem por isso as empresas donas dessas marcas deixam de anunciar. Elas sabem que precisam martelar o nome de seus produtos o tempo todo, e por todos os meios possíveis, inclusive no ponto de venda, para sustentar seu market share e aumentar as vendas.

As campanhas antifumo vão na mesma linha. Não basta assumir que as pessoas adultas já sabem que cigarro causa câncer e outras doenças. É preciso repetir essa informação exaustivamente e ainda assim o sucesso da iniciativa é limitado.

A própria pesquisa sobre a baixa eficácia da educação Financeira tradicional trata disso, ao apontar que, quando as orientações sobre decisões financeiras são dadas mais próximas do evento/decisão, o poder de influência aumenta.

Esses exemplos sugerem que uma saída para o baixo poder atual da educação financeira é aumentar, e não diminuir, sua prática e frequência.

Expandir o alcance desses treinamentos pode dar conta da parte da população que já tem tendência de agir racionalmente em suas decisões financeiras, mas que por algum motivo ainda não possui todo o conhecimento.

Para a outra parcela das pessoas, que deixa o racional de lado quando o assunto é dinheiro, é preciso repensar o modelo e os métodos. O uso de subterfúgios já testados internacionalmente, como a adesão ao plano de previdência privada ser o padrão no momento da admissão de um novo empregado – que tem o direito de pedir para não contribuir, em vez do contrário – é uma alternativa que já se mostrou exitosa. Em linha parecida existe o “Save More Tomorrow“, em que a pessoa se compromete antecipadamente a economizar mais para a aposentadoria quando receber um aumento no futuro.

Além disso, não se deve descartar a autorregulação e até mesmo a regulação da oferta de alguns produtos e serviços. No Brasil, os bancos gostam de falar sobre iniciativas que tomam na área de educação financeira. Mas como conciliar o discurso com taxas altas para o Tesouro Direito, venda de títulos de capitalização e juros de 300% ao ano no rotativo do cartão?

Governos liberais costumam preferir transparência, em vez de apelar para a proibição. Mas às vezes surge uma gordura trans no caminho.

(Fernando Torres – Valor Online)